Quinta-feira, Fevereiro 07, 2008

E agora, José?

Mais uma vez o vazio toma conta. E agora?
Você deve estar pensando: agora é hora de retomar o investimento aplicado nesses anos de curso. Certo? Certo!
Pois bem. Continuava com meu consultório bonito na minha cidade. Minha prima me auxiliava. No mesmo local trabalhavam dois colegas meus.
O tempo passava, fazia cirurgias, mas ainda havia " uma pedra no meio do caminho".
Ainda era muito cauteloso. Tinha receio de ousar. Por mais que eu tivesse ficado dois anos enfocando a área cirúrgica, ainda assim me sentia inseguro para realizar procedimentos mais complexos. Isso me emperrava muito...
Uma coisa eu digo aos aspirantes à cirurgia: quanto mais coragem, aliada à destreza e habilidade, melhor. O mercado precisa de cirurgiões hábeis. Precisa de gente que resolve.
E eu não sentia como um desses, que resolviam qualquer parada. É triste revelar isso, mas é uma sina que eu carrego comigo. Um bloqueio, sei lá. Medo de dar algo errado...
Enquanto isso ouvia notícias distantes dos colegas também formados. Alguns já assumindo cargos em hospitais, outros desistindo da profissão para cursar medicina...
Tempo vai, tempo vem... tudo na mesma. Consultório dando prejuízo... Desânimo...Pais cobrando resultado.

Recebendo o título de especialista

Pois é...
Dois anos se passaram como água debaixo da ponte. Foi tudo tão bom e prezeiroso, apesar de cansativo!
Os últimos meses de curso foram dedicados à monografia. Escolhi logo um tema controverso: o tratamento de fraturas de côndilo mandibular. Controverso porque há muitas condutas e escolhas, e pouco consenso entre os especialistas quanto aos cuidados desse tipo de fratura.
Peguei o que tinha de mais atual na literatura. Foram mais de vinte artigos em inglês. Eu os traduzi um a um, palavra por palavra. Foi uma pesquisa muito intensa, um trabalho árduo. No fim, gostei do resultado. Apresentei o trabalho com os colegas no fim do ano, na Unifenas, e recebi um A. Pronto. Era um especialista.

Quarta-feira, Fevereiro 06, 2008

Especialização- parte 2

Após quase 1 ano sem escrever no blog, só após escrever o último post eu percebi que fui repetitivo quando comecei a contar o início da especialização. Mas isso só serve para reiterar o que aconteceu.
O certo é que os dois anos que passei no Hospital foram alguns dos momentos mais marcantes da minha vida. Pra quem não leu anteriormente, sempre quis ser médico. Então... estar dentro de um hospital, pra mim, era como se uma criança estivesse numa fábrica de chocolate. Não importa se lá dentro o clima era pesado... Claro que muitos morriam e padeciam, a rotina era estressante e coisa e tal, mas aquilo ali mexia comigo. Tinha a maior satisfação em ser chamado de madrugada para suturar um paciente que tinha bebido todas e cortado a testa (acreditem, é verdade)- e às 7:00 hs da manhã estava de pé, fazendo as prescrições e passando o plantão para o próximo colega, com a melhor cara do mundo. Eu não era nem de longe o melhor aluno na prática, mas recebi elogios de um dos professores quanto à minha pontualidade e responsabilidade.
Falando em prática.... bom, aí começa o meu dilema.
Rapaz, como eu me definiria como cirurgião, e agora especialista em cirurgia?
É difícil pra mim tocar nesse assunto. É só falar nisso que meus olhos ficam marejados. É que alguma coisa me impede de evoluir na prática. Me considero normal, sou um bom dentista, nunca cometi nenhum erro grave na minha caminhada, estou melhorando a cada dia, etc, mas alguma coisa, e não sei bem o que é, sempre me impediu de alçar vôos mais altos na cirurgia.
Durante a especialização, me vi cercado de colegas de todos os tipo. Alguns humildes, outros nem tanto. Mas todos obstinados em vencer. Alguns ruins na teoria e ótimos na prática. Outros eram ousados e não tinham medo de arriscar. As meninas eram mais cautelosas e algumas não suportavam bem o stress do confinamento no Hospital, "surtando" algumas vezes.
As cirurgias pipocavam. Pacientes vítimas de agressões, acidentes automobilísticos, acidentes com animais... pacientes nervosos, calmos, histéricos. No mais , o mesmo: ossos e dentes quebrados, sangue, hematomas... E a rotina continuava: anamnese, radiografias, exames, internação, planejamento, cirurgia, acompanhamento, alta.
A maioria das cirurgias dava bons resultados, outras nem tanto. Os pacientes saíam satisfeitos, com exceção de um ou outro. Que eu me lembre, das dezenas que nós atendemos, somente um paciente ameaçou meu professor de processo, em virtude de uma seqüela pós-operatória.
Até isso virou uma paranóia pra mim, e creio , para muitos de meus colegas. A linha que nos une aos pacientes é muito tênue. Um dia, somos amigos e sorrimos. No outro dia, eles podem virar nossos piores inimigos. Cirurgia é assim... às vezes 5 horas debruçados no paciente, fazendo o nosso melhor, e depois, dependendo do resultado, podemos ainda ser questionados por eles. Isso é preocupante, afinal odontologia não é uma ciência exata. Resultados ruins podem acontecer com qualquer um. O que fazer numa hora dessas?

Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008

Na especialização... parte 1

Cheguei a Alfenas com uma mão na frente outra atrás...
Sonhos e perspectivas de mais. Dinheiro de menos.
Uma das coisas que nunca vou me esquecer é do local em que me hospedei nos dois anos de curso: na casa do Sr. José Theodoro e Marta, que foram como verdadeiros pais pra mim durante todo esse tempo. Me trataram com um carinho incrível. Eles já estavam acostumados a hospedar estudantes em sua casa simples, porém confortável, e creio até que eles gostavam disso, uma vez que casaram já de idade e não podiam ter filhos.
Cheguei ao Hospital Universitário para o primeiro plantão como aspirante a Buco-Maxilo. Acordei o residente às 7:00hs e comecei a enchê-lo de perguntas. Hoje lembro que ele devia estar querendo me mandar para aquele lugar... "pô, chega um cara às 7:00 hs no domingo e me enche de perguntas sobre o curso". Mas não tinha nada não, o cara era tão gente boa que me respondeu tudo.
O Hospital Alzira Velano é muito grande, bonito, equipado e considerado um dos melhores hospitais universitários do Brasil.
Conhecemos os professores do curso, os colegas de turma, desde aqueles que estavam começando o curso até os que iriam terminá-lo no final do ano. Na minha turma havia três homens e três mulheres. Foi a turma mais mesclada em termos de gênero...
Como éramos seis, dividiram-nos em três duplas. Cada dupla faria o plantão em uma determinada época do mês. O plantão era alternado, 1 semana ao mês. No início, éramos obrigados a dormir no hospital, no alojamento reservado aos estudantes. Quanto frio eu passei naquele quarto, com aquela coberta fina e dormindo com as roupas do Bloco Cirúrgico, que pegávamos às escondidas...
E a rotina começava: xxames, suturas, anamneses, radiografias, planejamentos, sangue, choros, amizades, inimizades, alegrias, tristezas, entusiasmo, cansaço, etc. Era tudo muito intenso dentro do hospital... Me sentia numa espécie de "shopping" diferente. Aquelas estudantes de Medicina tão bonitas e tão carentes de empatia... Técnicos de enfermagem, técnicos de RX e laboratório tão cansados e nervosos. Pessoal do transporte correndo pra lá e pra cá. Nos leitos, pacientes de todo o tipo: homens, mulheres, crianças... Altos, baixos, gordos, magros, feios, bonitos, ricos, pobres, educados, mal-educados, em estado grave ou não...
Médicos, enfermeiros, dentistas... professores, alunos, residentes... era uma profusão de gente, de comportamentos, de temperamentos...
Muita gente boa, algumas pessoas estranhas, alguns playboyzinhos e patricinhas, estudantes de medicina... às vezes me sentia muito inferiorizado quando ia conversar com algum deles. Pela primeira vez na vida me senti um zé-ninguém, em algumas ocasiões . Na minha turma de dentistas, não... tudo na boa. Todo mundo no mesmo barco. A classe médica é que não se misturava muito com os demais. Claro, com exceções.